Nível de aprendizado cai e compromete a renda futura de 35 milhões de jovens, diz especialista

É devastador o cenário descortinado pelo mestre em estatística pelo IMPA e doutor em economia pela Universidade de Chicago, Ricardo Paes de Barros, do impacto da pandemia sobre a proficiência dos estudantes e nível de aprendizagem nos 35 milhões de crianças e jovens da educação pública básica do país. Na economia, o custo da pandemia na educação em 2020 alcançará R$ 700 bilhões, ou 10% do PIB.

Valendo-se de um simulador modelado pela escala do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), ele projetou essa realidade provocada pelo fechamento das escolas em cumprimento às medidas sanitárias durante a pandemia. O estudo do Instituto Unibanco e do Insper buscou avaliar a magnitude das perdas, a possibilidade de reparação e as consequências. Apenas o estado de São Paulo apurou a sua realidade. O Rio Grande do Sul está elaborando seu diagnóstico.

A avaliação baseia-se em alunos da segunda série do Ensino Médio de 2020, que agora estão na terceira série, por ser um dos cortes educacionais mais afetados pela pandemia, explicou Barros. Sem a pandemia, na Escala Saeb o nível de aprendizado desses jovens em língua portuguesa e matemática seria de 22 pontos. Com a pandemia, na simulação feita para o RS, surgem perdas de 10 pontos devido à transição para o modo remoto, as dificuldades de acesso e a não realização das atividades escolares. O mesmo índice que em São Paulo, conforme apurou o especialista. “Para quem trabalha com educação e conhece a Escala Saeb, vai saber que 10 pontos é uma enormidade”.

Aplicando-se para todo o país a perda de 10 pontos, ele chega na dramática realidade que repercutirá no futuro de cada jovem brasileiro, que é a redução de 5% na renda (R$ 430 mil) estimada com a conclusão do Ensino Médio, uma perda em torno de R$ 20 mil ao longo dos próximos anos. Perda que pode se acentuar em caso de pouca atenção com os conteúdos escolares no período da pandemia, alertou. Essa é a situação de 35 milhões de jovens da educação básica pública do país, cujo impacto Barros calcula em R$ 700 bilhões, ou 10% do PIB brasileiro. O custo para a educação será duas vezes o custo para a saúde, destacou.

Ele mostrou estudos do Banco Mundial sobre o impacto da perda de aprendizagem dos jovens, que foi em torno de 10% do PIB mundial. Na América Latina salta para 16% a perda, o que alivia um pouco a estimativa de 10% do PIB para o Brasil. “A boa notícia é que dá para recuperar”, considerou, embora as projeções para 2021 sejam de perda até 17% do PIB. Paes de Barros acredita que com o 4º ano opcional e bolsa, o jovem poderá recuperar. “Diferente da vida, o conhecimento é recuperável”, observou. Mas alertou que continuando no mesmo ritmo de 2020, a perda chega aos 17% do PIB.

As simulações indicam que a superação poderá acontecer dobrando-se a adesão dos jovens ao ensino remoto ou híbrido, que é de 40% e deveria passar para 80%; as 25 horas semanais de dedicação teriam que aumentar para 80 horas. Com um sistema de recuperação simplificado e adequado ao currículo, para que o aprendizado se torne 50% mais eficiente; e retornar ao ensino híbrido ao longo deste segundo semestre. “Só assim se poderá recuperar ao menos 6 pontos na Escala Saeb, e fazer um impacto na vida dessas gerações”, vislumbrou Ricardo Barros.

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