Impacto da pandemia no comportamento dos brasileiros é abordado em seminário

Na última etapa da quarta edição do seminário O RS Pós-pandemia – reflexões e caminhos para o futuro do Estado, o presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Data Favela, Renato Meirelles, falou sobre o impacto da pandemia no comportamento dos brasileiros. Na sequência, ele participou do debate junto com o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, e os dois painelistas do evento, os economistas Pedro Nery e Ricardo Paes de Barros, sob mediação do presidente da Casa, deputado Gabriel Souza (MDB).

Meirelles informou que o Instituto Locomotiva e o Data Favela realizaram mais de 75 pesquisas específicas sobre a pandemia, incluindo questões como a situação da fome na favela e o processo de distribuição das vacinas contra a Covid-19 nos municípios, por exemplo. Enfatizou que 23 milhões de brasileiros acreditam que as vacinas irão alterar seu DNA ou inserir um chip em seu corpo, o que contribui para criar uma barreira efetiva no processo de vacinação no país. Além das fake news e da falta de vacinas para imunizar rapidamente a todos, lembrou que parte dos vacinados resiste a tomar a segunda dose por conta dos efeitos colaterais observados em algumas pessoas.

Ainda sobre as fake news, disse que uma das primeiras que foram desmontadas na pandemia era a de que o vírus atingiria de igual forma pobres e ricos no país. “Isso não é verdade. Uma coisa é poder trabalhar em home office e outra é ter que sair todos os dias para a rua para manter seu sustento”, explicou, lembrando que, muitas vezes, esse contingente de trabalhadores mais expostos não foi priorizado na fila da vacina e que, nas regiões periféricas, a contaminação é maior que nas regiões centrais.

Outra questão discutida por Meirelles foi a dicotomia economia e saúde. “Só se recupera economia com pessoas vivas, e não com pessoas mortas”, acrescentou, informando que o maior mercado consumidor do Brasil são os grupos mais vulneráveis do ponto de vista da saúde.

Ele também avaliou que houve grande insensibilidade no processo de distribuição de renda, citando pesquisa que mostra que um terço das classes A e B tentou fraudar para receber o auxílio emergencial, enquanto só 58% dos moradores de favelas que pediram o auxílio foram contemplados, muito por conta das questões burocráticas.

Ainda disse que as desigualdades no país foram escancaradas com a pandemia e defendeu que é preciso pensar em políticas públicas que não apenas distribuam renda, mas que priorizem a instalação dos equipamentos públicos nos locais onde eles mais são necessários e não necessariamente nas regiões centrais das cidades.

Com base nas grandes epidemias do passado, ele acredita que teremos avanços civilizatórios após a superação do coronavírus e que, se houve alguma vantagem em toda essa vivência, é que o eixo da polarização política deixou de ser entre esquerda e direita e passou a ser entre os que defendem o vírus e os que defendem a vacina. “O futuro não se dará com a negação da verdade. Não existe retomada, seja da economia ou dos direitos sociais, que não passe por um novo pacto que coloque a verdade factual no centro do debate”, finalizou.

Debate
O prefeito de Porto Alegre destacou que o Brasil é um país de privilégios e que isso ficou mais claro durante a pandemia. Sebastião Mello defendeu que a gestão pública tem que olhar para todos, mas ter um olhar especial para os que mais precisam. Ele ainda reclamou que a rede pública de professores segue incentivando que os alunos não voltem para a escola e que o retorno dos estudantes ao ensino presencial é o primeiro desafio a ser vencido atualmente. Mello também defendeu a facilitação do crédito para quem precisa, a qualificação profissional e a desburocratização estatal como formas de contribuir para superar as perdas da pandemia e ressaltou que o Estado não fará isso sozinho, precisando também da academia e do setor privado.

Pedro Nery apontou a questão das creches e o desenho das cidades como assuntos que deveriam ser discutidos no pós-pandemia. Avaliou que a ampliação das vagas e qualificação das creches é um debate nacional urgente. Sobre o desenho das cidades, disse que isso importa muito para o desenvolvimento econômico, defendendo que é preciso aproximar as pessoas e que as famílias mais pobres possam ter acesso mais fácil aos empregos, oportunidades e equipamentos públicos.

Questionado sobre o Auxílio Brasil, a ser implementado pelo governo federal, Ricardo Paes de Barros ressaltou que, apesar de não ter tido acesso a estudos que embasaram o novo programa, avalia a proposta como muito centralizadora, mas é favorável à bolsa mérito para jovens, salientando que a seleção dos alunos deveria ficar a cargo da comunidade escolar. Sobre as creches públicas, ele acredita que, enquanto faltam vagas, é importante organizar a fila, dando prioridade às mães mais pobres e que trabalham.

Meirelles chamou a atenção para programas, como o Bolsa Família, de distribuição de renda, mas que tem contrapartidas, como manter os filhos dos beneficiados na escola. Disse que não adianta oferecer o melhor para quem mais precisa se não se estabelecer uma escala, concordando com a posição de Paes de Barros que as mães mais pobres e que trabalham deveriam ser priorizadas nas vagas das creches públicas.

Ao final do seminário, Gabriel Souza informou que a desigualdade social será tema da próxima pesquisa de opinião a ser realizada pela Assembleia Legislativa, a exemplo dos eventos anteriores. Explicou que os resultados embasarão ações concretas a serem propostas pela Casa.

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